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Grito em silêncio

“Dentro do peito sinto uma dor imensa, um aperto sem fim… O coração bate acelerado como que estando numa corrida…pela velocidade, sinto que serei a vencedora… palpitações, dificuldades em respirar, … o que está a acontecer? O que devo fazer? Tento manter a calma, respirar tranquilamente, abstrair-me do que quer que esteja a causar esta reação em mim… o problema é: como me posso abstrair de algo se não consigo identificar a sua origem? Agora que tenho consciência de que não sei qual é o problema ainda estou pior… uhhh… não consigo que os pulmões recebam ar… o tórax está contraído impedindo a circulação deste, especialmente a sua entrada… quanto tempo aguento assim, antes de o meu corpo entrar em colapso? Uns segundos? O que faço? Como o obrigo a respirar? Porque o cérebro não me obedece? Como não entende a minha ordem de inspirar? Estou tão aflita que parece que perdi total controlo de tudo… não posso!, só estou piorar as coisas…mas como as resolver? O que fazer para as solucionar? Estou quase a entrar em colapso! Agora nem a voz já quer sair, o aperto aumentou, o coração sinto-o a bater nas minhas têmporas, a temperatura subiu, apenas o ar não entra… no desespero da situação atiro-me para o chão, batendo com as costelas em cheio, obrigando assim o tórax a expandir-se e, então consigo no último segundo receber o ar que desesperadamente necessito. Choro sem poder mais, mas finalmente respiro! Como detesto sentir-me assim!”

Afinal quem controla o quê? Não sou mais eu, mas sim os problemas, o inconsciente, … tudo menos EU mesma! Todos temos problemas, a nossa própria maneira de lidar com eles, resolvê-los, evitá-los, adiá-los, … mas uma coisa é certa, o nosso corpo é o local onde eles se alojam, começam como uma pequena semente – aparece, instala-se, vai ficando, crescendo, … até que ganha raízes e, por vezes, por serem tão profundas, são quase impossíveis de arrancar de vez! Os problemas são exatamente iguais – aparecem, vão permanecendo até ganharem estirpes – e, embora pensemos que já estão resolvidos e, não são mais um problema, eis que percebemos que essas raízes ainda cá estão – o nosso subconsciente capta e guarda tudo! Mas porquê a reação acima? Existem muitos motivos que – ainda que nem sempre possam ser racionalizados como pensamento / entendimento – desencadeiam tais sentimentos, medos, pavores que, outrora vivenciamos e, que há primeira vista nada têm a ver mas, que o nosso inconsciente “associa” e, passa a expressar-se.

Os ataques de pânico que vivencio têm várias origens, mas não passam de aflições, gritos em silêncio do meu subconsciente! Pode parecer estranho mas para mim é a única coisa que faz qualquer sentido! Uma coisa simples como uma imagem, uma palavra, uma expressão de afeto, um toque, … basta para ser a porta “tele-transportadora” para algo que nos marcou e, então, inconscientemente passamos a revivê-lo outra vez por alguns minutos angustiantes e aflitivos, onde os nossos pensamentos nos comandam – a nós e ao nosso corpo – sem que nos seja permitido interferir!

Quem nunca teve um ataque/crise de pânico não conseguirá perceber o que descrevo mas, por sua vez, todo aquele que já o experienciou, só de ler, parece que já o está a sentir novamente! Todo o nosso corpo é bastante perfeito e complexo, mas quanto ao cérebro, esse não consigo descrevê-lo! Como pensadores, tentamos racionalizar tudo em pensamentos simples, soluções de problemas, sensações, sentimentos, … isto conscientemente! Mas, o nosso inconsciente, eu gosto de pensar nele como sendo o nosso sistema imunológico de tudo o que faz de nós o que somos – experiências, sentimentos, medos, … - que quando deteta algo “conhecido / familiar” dá o sinal de alerta, mas quando ignorado por algum tempo, chega aos “41ºC / 105ºF de febre” – os ataques de pânico! Então, apenas quando começamos a sentir os primeiros sintomas pensamos que algo está errado, mas muitas vezes é tarde… tudo porque ignoramos os alertas descontrolados, os gritos mudos dados por este!

Estes gritos não nos matam de uma só vez, mas sim aos poucos… cada dia vamos perdendo um pouco de nós. Se não queremos chegar a este ponto, temos de estar atentos aos “sinais” que vamos recebendo, para que assim os possamos racionalizar a fim de, não os combater mas sim, lutar lado a lado com eles! Isso nos permitirá conhecer-nos melhor, ter uma vida mais calma e, ao mesmo tempo, ensina-nos a estar atentos, para prevenir que estes gritos em silêncio se manifestem!

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